O Projeto EMF-SP foi um projeto de pesquisa e desenvolvimento da ANEEL, coordenado pela ABRICEM, sobre os efeitos na saúde da exposição humana a campos elétricos e magnéticos de baixa frequência (60 Hz). Esses campos são gerados por linhas de transmissão, subestações e redes de distribuição de energia. As pesquisas ocorreram no estado de São Paulo entre 2005 e 2009, e os resultados foram publicados no livro Exposição a campos eletromagnéticos e saúde: um estudo brasileiro (Papirus Editora, 2010), disponível para download no fim desta página.
Por que o projeto foi criado
A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), da Organização Mundial da Saúde (OMS), classificou os campos magnéticos de baixa frequência como "possivelmente cancerígenos para os humanos". A classificação se baseou em estudos sobre leucemia em crianças com resultados indicativos, mas não conclusivos. Esses estudos tinham sido feitos na Europa e na América do Norte, e nenhum na América do Sul.
Havia também uma lacuna nas regras brasileiras. Os limites que a ANATEL adotou em 1999 valiam para campos de 9 kHz a 300 GHz e não cobriam a frequência da rede elétrica, de 60 Hz. A ANEEL aprovou então o Projeto EMF-SP para fazer essas pesquisas em São Paulo e produzir dados de referência para o Brasil, para países vizinhos e para a OMS.
Quem participou
A ABRICEM coordenou o projeto, por indicação do Laboratório de Integração e Testes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Participaram pesquisadores da USP, da Unicamp, da PUC-Campinas e do IPT, as concessionárias Eletropaulo, CPFL, Bandeirante, Elektro e CTEEP e os ministérios da Saúde e de Minas e Energia. A epidemiologista Leeka Kheifets, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), deu assessoria científica internacional.
As cinco linhas de pesquisa
- Leucemia infantil: estudo caso-controle com crianças atendidas em hospitais da capital e do interior de São Paulo. A equipe mediu o campo magnético nas casas, inclusive por 24 horas com um dosímetro sob o local onde a criança dormia.
- Doenças em adultos: mortalidade por leucemia, câncer do sistema nervoso central e esclerose lateral amiotrófica (ELA) na Região Metropolitana de São Paulo, de 2000 a 2005, de acordo com a distância das casas até as linhas de transmissão.
- Acidentes de trabalho: um método para estimar a exposição dos eletricitários, aplicado a 1.600 trabalhadores acompanhados por mais de um ano.
- Percepção de risco: entrevistas e testes com 600 adultos de dez cidades.
- Perfis de exposição: um mapa georreferenciado das linhas de transmissão, com dados das concessionárias, e o cálculo das faixas onde o campo magnético chega a 0,3 µT ou mais.
O que o projeto encontrou
Leucemia infantil. Dentro de casa, 6,0% das crianças do estado estavam expostas a campos magnéticos iguais ou maiores que 0,3 µT (3 mG), em medições de 24 horas. Na Região Metropolitana de São Paulo, o índice era de 7,7%; no restante do estado, de 1,4%. A exposição a esses níveis era mais frequente do lado de fora das casas, provavelmente por causa das redes de distribuição. O estudo encontrou associações discretas e sem significância estatística, e o risco não aumentava com o nível de exposição. Para os autores, esses resultados não permitem considerar a exposição a campos magnéticos uma causa de leucemia em crianças.
Doenças em adultos. Os resultados sugeriram um aumento do risco de morte por leucemia entre os adultos mais expostos, em linha com a literatura internacional, mas sem significância estatística. Para câncer do sistema nervoso central e ELA, os resultados foram menos consistentes. Os autores recomendam novas pesquisas.
Acidentes de trabalho. O projeto criou uma matriz de exposição ocupacional que classifica em cinco graus a exposição dos eletricitários que trabalham em redes de distribuição e linhas de transmissão.
Percepção de risco. A maioria dos entrevistados não confiava no governo para adotar medidas de proteção, e cerca de um quarto não confiava nas empresas responsáveis. Os autores recomendam um programa de comunicação sobre o risco das linhas de transmissão.
Perfis de exposição. A equipe montou um sistema de informação geográfica com o traçado e os dados técnicos das linhas da Eletropaulo, Bandeirante, Furnas, CTEEP, CPFL e Elektro.
Em 2008, o projeto promoveu na Faculdade de Medicina da USP o Workshop Avaliação de Riscos da Exposição a Campos Magnéticos 60 Hz. Segundo o pesquisador responsável, da Faculdade de Saúde Pública da USP, o estudo de leucemia infantil foi o primeiro do tipo na América do Sul (Agência FAPESP, 19/02/2008).
O que veio depois
Em 2009, a Lei nº 11.934 estabeleceu limites para a exposição humana a campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos, incluindo os do sistema elétrico. Segundo a ABRICEM, os resultados do Projeto EMF-SP serviram de contribuição da comunidade científica para essa regulamentação.
A ABRICEM continua medindo campos de 60 Hz. Se você precisa de um laudo de campo elétrico e magnético para linhas de transmissão, subestações ou outras instalações, veja os serviços de medição de campo elétrico e magnético.
Baixe o livro
Exposição a campos eletromagnéticos e saúde: um estudo brasileiro, Papirus Editora, 2010, ISBN 978-85-308-0910-2 (PDF, 192 páginas, 0,8 MB). Direitos de publicação reservados à ABRICEM.
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